sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Planinho

    Recompensando os dias faltosos, vê-se sentado no mesmo colchão, contando as mais doces inseguranças e provando os únicos lábios que realmente o interessam. Ela, tola, cometeu os mais ridículos enganos, quis pagar por isso... e pagou, procurando n'outro as mesmas coisas, mas o pecado e o castigo estavam lá. A forma como se querem mostra o quanto se necessitam, um sem o outro é frio, incolor e sem gosto... juntos são deliciosamente encantadores, discretos, incomuns e quando sozinhos despem-se, mostram-se só para as cortinas, sem a menor carência de pensar no que há depois das portas do quarto. A desculpa serve, e dizer que não acontecerá outro dia é confortável, desperta em ambos uma vontade de seguir, prosseguir acreditando, e muito. O mais incrível da retomada é que apesar de um passado displicente e agonizante o beijo basta e é a forma mais correta de se resolver absolutamente tudo, desde os primórdios da humanidade.

                                                                            Andreza Reis.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

E o coração fica da porta pra fora

    Devaneia, arrisca um trecho seco e cai na cama, enrola-se bem pouco, arranca os fios restantes e descansa tão lindamente que só já basta. Quem a escuta acha que deliciar-se ali é tudo, absolutamente tudo. E num segundo hipnotizado se vê domado, preso aos goles da saliva doce e a toda perfeição que o poder dos outros já não guarda. Gritam que a querem, imploram lábios e fazem promessas genuinamente elaboradas, promessas que qualquer outra mataria para sentir. Os olhos tontos provam o calor dos corpos, e quando já não há taças ela transita, descabela-se e esfrega-se em roupas que vê por frente, trás e todos os lados. Junta cacos, entra em carros alheios e no banco detrás solta-se, joga-se, balanceia um pouco,  sente o vento e ali faz-se seu último dia, arrepende-se só por ter dito que queria mais, e quando a olham pensam no quanto é ridículo ser fácil... ou no quanto é fácil ser ridículo.
                                                                            Andreza Reis.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Tinindo trincando

    Já fomos samba, "rock'n'róu" de Chico e bossa, muita bossa. O broto era demais, e a "supimpalidade" das coisas era propagada num tremendo "paz e amor" e quando tudo mudou me rebelei, revolucionei, colei uma suástica na jaqueta de couro sem sequer saber o significado, me entreguei aos bagulhos e consumi fumaça. Quebrei guitarras em corações alheios, toquei baixo com palheta e usei óculos só para parecer um besouro como os outros. Fui do contra, às vezes da razão... mas nunca deixei de ser, deixei ser. Limitei-me a achar que um dia a massa ia ser massa, que os carros iam voar e as pessoas serem mais de conteúdo, mas sabe como é né ? é justamente nesse segundo de tempo que bate inveja dessa tal preguiça de pensar, é justamente nesse segundo de tempo que a gente vê esses tais "novos baianos" mudarem as coisas, quebrarem os limites da concordância pronominal, e serem no "passado, presente e particípio  o mistério do planeta". Mas agora de que serve a rebelião ? o que nos resta é aplaudir a geração dos cento e quarenta caracteres, por ficarem obsoletos e por realmente dizerem tudo o que tem a dizer, ou seja, nada.

                                                                            Andreza Reis.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Beijar o machucado

    O colo indicado num gesto e os braços abertos nunca lhe caíram tão bem. Qualquer coisa era melhor que aquilo, até mesmo a sopa, as gotinhas amargas e os sermões nunca escutados. Tinha doces olhos, voz delicada e um charme suficientemente encantador, como todas as outras, ou até mais... por simplesmente ser a única coberta por amor, desejos cumpridos e sonhos inocentes. As rodas haviam sido retiradas por coragem, qualidade que sempre falta a qualquer grandalhão na hora de resolver as coisas, e que ela, quase miniatura, havia adquirido de sobra. Olhou e correu, foi beijada e mimada enquanto escutava um unânime: "vai passar, meu bem!" Engraçado que é justamente nessas horas que a gente pede piedade, um pouquinho menos de sofrimento, muito carinho, mimo, uns mil colos, uma tonelada de doces e muita, mas muita vontade de encarar esse negócio contraditório que na infância a gente nem sequer intitula de vida, apenas deixa-o ser.

                                                                           Andreza Reis.