sábado, 27 de novembro de 2010

Toi le divan moi la névrose

    Possibilidades me consomem. Acho-te tão anormal quanto a cura. Ontem, deitei-me e dormi ao conversar com esses tais objetos inanimados, eles são tão meus amigos quanto você, e talvez me desejem até mais do que sua própria vontade. O jardim era tão bonito, e pássaros verdes me traziam notícias de um mundo sóbrio, ridículo e desinteressante, achei tudo aquilo tão piada que meu riso estendeu-se por horas vendo a infelicidade dos felizes.
    Tenho manias, e meus vícios são mais eu do que mim mesmo, me traduzem e me denunciam o tempo todo, falam tanto de mim que mando-os calarem as bocas, mas que chatice! São incansáveis meninos, apesar de serem velhos... Tão velhos. Mudo o tempo todo, agora, por exemplo, estou mudando. Sonho todos os dias, me teletransporto e me encontro, acho tão bom! mas mesmo assim, os pássaros verdes me perseguem, e me ditam as notícias do mundo clichê, a verdade é que já cansei de escutá-los faz um tempo, na verdade desde que encontrei esse poço de prazer chamado loucura dentro de mim. E minha fuga é reação, porque todo ser é incompleto sem insânia, mas agora, agora me desculpem, pois os pássaros me chamam novamente e falam de normalidade... Mas que palavra estranha! Nunca traduziram isso para mim.

                                            
                                                                                           Andreza Reis.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Você é tão auto-suficiente

    Os tais cafés gelados, músicas sem letra e sentimentos quebrados te levaram a desacreditar no que virá depois dessa. Os curativos falam mais sobre você do que as próprias palavras, e talvez  você precise de uma máquina de escrever, mas precisa escolher bem, depois do que fica não se pode mudar, apagar e muito menos tentar voltar atrás, tem mesmo é que rasgar a página, pôr fogo até incendiar, tornar tudo tão cinza quanto sua própria vida. Os riscos são tão indecentes e você se apega, sente carinho, guarda-os na mente sem pudor algum, porque você sabe que um passo a diante pode te derrubar por tempo indeterminado, e a mão provavelmente demorará a chegar, e talvez você caia de novo até que ela seja estendida. Vá mais uma vez, perca seu tempo lendo livros com finais patéticos e desacreditáveis, escolha uma música sem letra na sua jukebox, e diga que é feliz, porque eu, eu não vejo nada mais banal do que não acreditar em si e deixar as coisas como estão... Conformismo me dilata, conformismo me transforma em frenesi, conformismo terminantemente é a solução mais apropriada que os pseudo-sonhadores acharam para levarem mais a sério esse negócio lento que chamam de vida.

                                                                           Andreza Reis.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Please, bandages!

    Sílabas soaram. Simples, rápidas e dolorosas. A razão consola-se com o mais hipócrito clichê de "serviu como aprendizado", enquanto os olhos dizem o contrário e se enchem de lágrimas pelo que não foi. O coração arrependeu-se amargamente de ter pulsado unicamente pra ele, e por ele. O corpo é todo torpor, nutrido apenas pelo fantasma da doce voz, dos negros afagar de cabelos, e das mais sinceras promessas ditas, e agora quebradas. Nem outros braços, lábios, nem outro perfume, só espera por ele. Ela o odeia, por ele ter sido tudo para ela, ela tudo para ele, e eles nada pelos dois.

                                                                                                                                                                       Catarina Buson.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Marcha fúnebre para um herói morto

    Estranho enquanto pessoa, insignificante enquanto ser, vazio enquanto espírito. Seus sonhos cabem em uma caixa de fósforos, a mesma usada para acender o cigarro. Preenchido por incerteza, a síndrome da estranheza lhe cai como uma luva. Poderia voar, mas não tem motivos para tal, poderia cantar, mas a voz é desprezível aos próprios ouvidos. Poderia amar, mas amar é para os fracos. Poderia beber, e bebe. Envergonha-se disso. Bebe denovo. Nunca desejou tanto ser o nada.
    O abismo na sua frente não o assusta, o que o apavora é continuar com o abismo dentro de si.
                                     


                                                                       Catarina Buson.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Elementos nocivos no ar

      Tudo é tão segundo, por vezes canso desse piscar de olhos desritmado, e só de pensar em perdê-lo sinto que me acabo por todas as partes. Sempre é cedo, ninguém pensa se depois haverá tempo, e tudo fica tão tarde, escuro, e vazio não preenchido, quase que propositalmente. A gente espera porque quer, acha que vai dar certo crê nas coisas mais absurdas e vê as mais sinceras se desmancharem rápido, rápido, rápido, tão qual gelo derrubado em asfalto ardente. Amanhã tudo vai dar certo, amanhã é outro dia, amanhã eu vou fazer o que não fiz quando devia, amanhã é confiança... Mas amanhã também é aposta,  é lance de dados, amanhã é incerto, passageiro e talvez até inexistente... Amanhã não viu o trem que passou ontem, e você, você é só mais um dos que se recusam a acreditar que hoje, enquanto houver respirar, sua boca emitindo algum  som, sua mão segurando a de quem se ama por algum motivo, seu coração pulsando (mesmo que você esteja só dormindo) é a tradução mais nítida de que isso é vida, e ela realmente não depende de você, ela acontece agora e porque quer, e não espere muito, não espere mesmo! porque talvez ainda hoje ela canse de você, só isso, mais nada.
                                                                           
                                                                           Andreza Reis.

domingo, 7 de novembro de 2010

For you-oo, sweetheart

     Você nunca me deixa cair, nunca deixa as coisas tão queridas das nossas vidas irem embora, me acha melhor de todas as formas, mesmo sabendo que às vezes não sou o melhor para mim. Encontro mil formas de te agradecer, nenhuma é tão válida o quanto preciso que seja, então nem digo... Só me mostro para você. A vida passa a ter gosto de açúcar quando você me traz de volta para casa e me faz reviver tudo o que eu quero que se renove mais uma vez. Ponho todas as minhas expectativas em você, sei que te espero mesmo, confio em você como confio no tempo, sem precisar justificar, sem perguntar, você me dá provas, e isso é tão suficientemente grandioso que basta.  Faço-te mil perguntas, me deito, e fico te olhando o tempo todo, sinto que você rouba minha alma, e isso é tão sem perdão! Mas eu gosto, e gosto tanto... Explodo por dentro cada vez que você se torna mais parte de mim. Vidas tão bem vividas, bens tão compartilhados, provas tão concretas e noites puras, o que eu esperaria além disso e além de todas as lembranças que me guardam para você? Espero sempre mais, espero tudo, porque você tem esse seu curioso hábito de me surpreender nas coisas mais simples, sem se quer perceber.
                                                                        
                                                                          Andreza Reis.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

You...Soft and Only

      Ruas escuras, palavras usáveis e brindes desnecessários. Achei que já havia visto isso tudo antes, bem antes...num passado que nem se quer sei se existiu. Quando o tempo foi passando por algum motivo não quis pará-lo, por algum motivo senti que precisava ser menos egoísta, mesmo sem querer. Olhei para eles e tudo me pareceu tão cômodo, principalmente os risos ao vento e os abraços calorosos. Não via aquilo fazia um tempo, mas só de olhar me senti parte dali. Alguns eram movidos à estrelas, outros a sorrisos e alguns movidos pela vida, sem nenhuma pretensão de existir. Demorei um pouco, sentei-me numa calçada e eles me olharam com facas nos olhos, eu sorri e saí, lembrei-me de que quando o tempo era nosso também não gostávamos de gente curiosa, nós não tínhamos curiosidade alguma, a vida havia matado todas. Andei mais um pouco, sentei no banco do nosso parque e pensei comigo se agora, depois de tanta coisa, a vida tinha o mesmo valor de antes...não achei resposta, mas a árvore que ficava ali em frente ainda estava lá, intacta como antigamente, com os mesmos nomes grafados em si.
                                                                  
                                                                        Andreza Reis.