domingo, 15 de maio de 2011

O Beijo para sempre

    Nasci o retrato da burguesia infeliz, resultado da intelectualidade mal construída, plutocrata desgostoso, nasci de carne, ossos e lataria já oxidada.

Traguei a fumaça duma fábrica desconhecida, lembro-me de gritos, bocas incessantes implorando piedade, gritando por um deus que merecia ser descrito em letra minúscula.

Vi placas estranhas, fotos utópicas, tudo tão distante da realidade que me acompanhava que me surpreendi ao ver filas interessadas naquilo que deveras era tão descartável.

Temi um homem que ficava em uma caixa, ele parecia real e me dizia como eu tinha que ser, ao mesmo tempo me manipulava, me achava feio, desajeitado, falava que eu estava fora de um grupo chamado "padrão", ah, mas eu corri! corri até quase ser pego por um bicho estranho e grande, que produzia uma fumaça parecida com a da fábrica.

Deitei-me numa grama verde, minha cabeça desconfigurada suplicava por conteúdo, e eu lá, vivendo do caco, no oco da escuridão imensa, insuportável ventre vazio chamado de mundo.
 
Ah, como me decepcionei! ah, como vi homens confundirem-se com cédulas...
 Não suportei.
Morri ao nascer.
Nasci ao morrer.

                                                                      Andreza Reis.



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